Por que, em 1982, optei por passar três temporadas no FC Groningen em vez de ‘ganhar dinheiro rápido no estrangeiro’

Depois da minha época no Willem II, muita coisa mudou. Tinha tido um ano excelente, marquei muitos golos e percebi que, de repente, as pessoas passaram a olhar para mim de forma diferente. Não só na Holanda, mas também no estrangeiro, começou a haver interesse.

Para um jovem jogador, isso é aliciante. Uma liga diferente, atenção internacional, maior visibilidade e, muitas vezes, também um salário melhor. No entanto, eu sabia que o dinheiro não devia ser a minha principal motivação.

O meu plano era claro: queria continuar a evoluir, tirar o máximo partido do meu talento e jogar num sistema que se adequasse a mim. O futebol holandês, com o sistema 4-3-3, parecia-me lógico. Como avançado-centro, tinha espaço, assistências pelas laterais e esquemas bem definidos nos quais podia explorar as minhas qualidades.

Por isso, não optei automaticamente pela solução financeira mais rápida. Queria saber: isto vai trazer-me benefícios?

Houve interesse estrangeiro, mas o meu plano continuou a ser determinante

Quando se é um jovem futebolista profissional, é fácil ficar impressionado com o interesse vindo do estrangeiro. Isso é um sinal de reconhecimento. Confirma que se está no caminho certo.

Mas reconhecimento não é o mesmo que orientação.

Não queria mudar de clube só porque parecia ser mais importante ou porque o salário era mais atraente. É claro que o dinheiro não é irrelevante. A carreira profissional é curta e é preciso ter bom senso financeiro. Mas o dinheiro não pode ser a única razão para a escolha.

Para mim, o que importava era o desenvolvimento pessoal, mais do que o dinheiro.

Queria melhorar como avançado. Queria testar as minhas capacidades num ambiente onde pudesse crescer. Por isso, não me concentrei apenas no contrato, mas sobretudo no aspeto futebolístico.

Por que é que o FC Groningen me atraiu

Quando o FC Groningen demonstrou interesse, achei isso imediatamente interessante.

Não só porque era um clube da Eredivisie, mas porque, como adversário, já tinha percebido que tipo de clube era. Os jogos fora de casa contra o Groningen nunca eram comuns. Havia uma atmosfera especial. Havia barulho. Havia energia.

O público acompanhou o jogo com grande entusiasmo e apoiou a equipa.

Há quem subestime a influência dos adeptos. Mas, como jogador, isso sente-se bem. Uma claque fanática, leal e barulhenta pode tornar uma equipa mais forte. Os jogadores sentem-se apoiados. Os adversários também notam essa pressão.

Isso não me paralisava. Sempre tive uma mentalidade de vencedor. Quando alguém me desafiava, eu redobrava os esforços. Mas conseguia imaginar como seria maravilhoso tocar para um público assim, em vez de contra ele.

O FC Groningen tinha algo de especial. O ambiente, o futebol ofensivo e o entusiasmo dos adeptos impressionaram-me. Por isso, decidi iniciar conversações sérias com o clube.

A conversa em Schiphol

Combinámos encontrar-nos no aeroporto de Schiphol. Era muito prático, porque eu ia apanhar um voo para Hull para visitar a minha mãe e passar férias.

A conversa começou bem. O treinador principal, Theo Verlangen, foi claro nas suas palavras. Ele via um lugar para mim na linha de frente, como sucessor da lenda do clube, Peter Houtman.

Isso inspirou confiança.

Compreendi o que ele queria. Senti que as minhas qualidades se encaixavam na sua ideia. Para mim, isso era mais importante do que palavras bonitas. Um jogador tem de saber onde vai parar, como o treinador quer jogar e qual o papel que lhe vai ser atribuído.

O quadro do futebol estava correto.

Mas depois veio a questão financeira.

O presidente Renze de Vries fez-me uma proposta inferior ao que eu ganhava no Willem II. Foi uma situação difícil. Eu estava disposto a optar pelo desenvolvimento, mas isso não podia significar um retrocesso. Como jogador, também é preciso conhecer o nosso valor.

Há aqui uma lição importante: optar pelo desenvolvimento pessoal em vez do dinheiro não significa que tenhas de aceitar tudo sem questionar.

Podes optar pelo crescimento e, ao mesmo tempo, ser realista quanto ao teu valor.

Negociar com clareza

Naquela altura, contei com a ajuda do meu bom amigo Willem Straatman, que conhecia do meu tempo no FC Wageningen. Isso foi necessário, porque Renze de Vries não falava inglês. O Willem ajudou-me a transmitir claramente o meu ponto de vista.

A certa altura, disse ao Willem quanto queria ganhar, mais ou menos. Deixei bem claro: se isso não for possível, vou-me embora.

Isso não foi uma ameaça. Foi uma afirmação clara.

E essa clareza surtiu efeito. O FC Groningen mostrou-se disposto a negociar de forma mais realista. Acabámos por chegar a um acordo. Pude assinar o meu contrato e, em seguida, apanhar um voo para Inglaterra.

Foi assim que o FC Groningen se tornou o meu próximo passo. Assinei um contrato de três anos, para o período de 1982 a 1985.

O desenvolvimento pessoal exige uma bússola interior bem definida

Quando olho para trás, percebo que essa escolha diz muito sobre a evolução do futebol.

Muitos jogadores jovens querem progredir. É lógico. Mas progredir nem sempre significa que se tenha de ir para o clube mais importante, o salário mais alto ou a liga mais prestigiada.

Às vezes, o melhor passo é o clube onde mais se pode aprender.

Para mim, o FC Groningen era um clube assim.

Não optei por não ir para o estrangeiro por ter medo. Escolhi Groningen porque se enquadrava melhor no meu plano de desenvolvimento. Essa diferença é importante.

Uma boa carreira não se constrói apenas com talento. Constrói-se com as escolhas que fazemos.

Tens de ter a coragem de dizer:

• Isto é o que me convém.
• Isto não combina comigo.
• Aqui posso crescer.
• Aqui talvez ganhe mais, mas não vou melhorar como jogador.
• Aqui tenho de negociar, porque o meu valor conta.

Muitas pessoas só vêem os jogos, os golos e as transferências. Mas é nos bastidores que muitas vezes se tomam as decisões mais importantes. É preciso ter uma bússola interior que nos mantenha no caminho certo. É preciso manter o objetivo final em mente. Para mim, isso significava: desenvolver-me da melhor forma possível, dar o máximo de mim e, assim, chegar ao topo.

O plantel do FC Groningen

Claro, assim fica mais fluido:

O sistema 4-3-3 holandês adaptava-se bem a mim. Cheguei ao FC Groningen como sucessor de Peter Houtman e, como avançado centro, tive exatamente o que precisava: espaço, assistências pelas laterais e esquemas bem definidos que me permitiam explorar as minhas qualidades.

Além disso, quando me juntei à equipa em 1982, rapidamente percebi a qualidade que havia no plantel. Com jogadores como Ronald Koeman, Erwin Koeman, Ron Jans e Steve Goble, sentia-se imediatamente que havia futebol naquela equipa. Era um grupo agradável e talentoso, com técnica, perspicácia, carácter e ambição.

Como avançado, estás sempre dependente dos teus colegas. Podes trabalhar arduamente, movimentar-te com inteligência e estar atento à baliza, mas também precisas de jogadores que te compreendam e te sirvam no momento certo.

No FC Groningen, tive a sensação de que essa base existia.

O Theo Verlangen também teve um papel importante nisso. Era um treinador exigente, mantinha o controlo total do grupo e exigia muito dos seus jogadores. Acabámos por garantir a qualificação para as competições europeias após uma vitória sobre o FC Twente no último jogo da época.

Isso foi extraordinário.

O público compareceu em grande número, tanto fora como em casa. Esse envolvimento deu energia. Dava para sentir que o clube estava vivo.

Ajax – FC Groningen 5-5

Um jogo que ficou na memória de muitos adeptos foi o jogo fora de casa contra o Ajax. Esse jogo terminou em 5-5.

Um jogo bizarro. Muitos golos, muitos momentos marcantes, muita emoção.

Nessa partida, ultrapassei ninguém menos que Johan Cruijff (foto acima) e marcou um golo.

Mas um dos melhores golos que já vi na minha vida foi o golo de Ron Jans. Esse golo continua na memória de muitos adeptos. Provavelmente um dos golos mais bonitos de todos os tempos. São momentos como este que mostram porque é que o futebol é mais do que um resultado. São imagens, emoções e memórias que ficam. Aquele jogo também revelou algo sobre a equipa que tínhamos. Havia coragem. Vontade de atacar. A vontade de jogar futebol. E isso combinava comigo.

O que os jovens jogadores podem aprender com isto

Como treinador e mentor, vejo agora este tipo de momentos de forma diferente do que quando era jogador.

Naquela altura, estava no auge da minha carreira. Tinha de tomar decisões, sentia a pressão, negociava, disputava jogos e tentava dar o meu melhor. Agora, percebo sobretudo como é importante que os jovens jogadores aprendam a refletir sobre o seu próprio desenvolvimento.

Nem todas as oportunidades são as oportunidades certas.

Nem todas as transferências representam um avanço.

Nem sempre um salário mais alto significa automaticamente uma melhor oportunidade.

Os jovens jogadores têm de aprender a ver o panorama geral:

• Onde vais parar?
• Quem é o formador?
• Que sistema se joga?
• Tens realmente oportunidade de crescer?
• A cultura do clube é adequada para ti?
• Lá, o seu trabalho limita-se apenas à execução, ou também à criação?

No futebol, dá-se muita importância ao talento, mas o talento sem orientação pode perder-se. Especialmente quando surge interesse vindo de fora.

É por isso que os jovens jogadores precisam de mais do que apenas treino. Precisam de orientação para pensar, tomar decisões e lidar com a pressão. A sua carreira não é determinada apenas pelo que conseguem fazer com a bola, mas também pelas decisões que tomam fora do campo.

Uma época marcada pela dor, pela recuperação e pelo futebol europeu

Outro fator que contribuiu para isso: pessoalmente, não posso dizer que a minha primeira época no FC Groningen tenha sido um sucesso total.

Tive de fazer uma cirurgia ao menisco e jogava com dores no joelho esquerdo. Isso afeta-nos quando se é avançado. Queremos mover-nos com liberdade, fazer viragens bruscas, reagir de forma explosiva e avançar com determinação para a baliza. Quando o corpo não colabora, tudo parece diferente.

Marquei onze golos. Para alguns jogadores, isso pode parecer ótimo, mas, para os meus padrões, senti que ficou aquém do que eu queria alcançar.

No entanto, a época não estava perdida.

Conseguimos qualificar-nos para as competições europeias. Joguei numa equipa forte. Conheci o clube. Senti a energia do público. E voltei a deparar-me com algo que todos os desportistas aprendem: o desenvolvimento nem sempre é uma linha reta ascendente.

Às vezes, optamos conscientemente por dar um passo, mas mesmo assim surgem contratempos.

Uma lesão. Dor. Recuperação. Frustração.

Isso também faz parte do desporto de alto nível.

Lição mais importante

Se tiver de tirar uma lição deste período, é esta:

Não opte automaticamente pela recompensa mais rápida. Opte pelo passo que o torna melhor.

Isso aplica-se aos jogadores de futebol, mas, na verdade, a toda a gente.

Na vida, há momentos em que algo parece atraente. Mais dinheiro. Mais prestígio. Mais atenção. Um nome mais conhecido. Mas a questão é: isso aproxima-te daquilo que deves tornar-te?

Para mim, o FC Groningen foi uma escolha desse tipo. Não porque tudo fosse perfeito. Não porque fosse fácil. Mas porque se encaixava no meu plano, no meu desenvolvimento e na minha forma de jogar futebol.

Queria tirar o máximo partido do meu talento e chegar ao topo. Para isso, tive, por vezes, de dizer «não» às tentações e «sim» ao crescimento.

Isso é dar preferência ao desenvolvimento pessoal em vez do dinheiro fácil.

Depois daquela primeira época, voltaram a mudar muitas coisas. Theo Verlangen, o nosso excelente treinador, deixou o clube. Em seu lugar, chegou Han Berger. Isso significou uma nova fase, um novo treinador e uma nova adaptação. A minha segunda época no FC Groningen seria uma história completamente diferente.

Reflexão para o leitor

Reflexiona sobre o teu próprio desenvolvimento: optas pelo que parece atraente a curto prazo ou pelo que te torna mais forte a longo prazo?

Perguntas frequentes sobre este artigo

1: Por que é que o Rob McDonald escolheu o FC Groningen?

Rob McDonald escolheu o FC Groningen porque o clube se enquadrava no seu desenvolvimento pessoal como avançado. Após a sua excelente época no Willem II, houve também interesse de clubes estrangeiros, mas ele queria, acima de tudo, jogar num ambiente onde pudesse melhorar. O FC Groningen ofereceu-lhe um papel claro na linha de frente, um público entusiasta e um estilo de jogo ofensivo que se adequava a ele.

2: O que significa dar prioridade ao desenvolvimento pessoal em detrimento do dinheiro no futebol?

O desenvolvimento pessoal acima do dinheiro significa que um jogador não se fixa apenas no salário ou no estatuto, mas sobretudo na questão: isto vai fazer-me crescer? Para Rob McDonald, isto significou que optou por um clube onde pudesse crescer como futebolista, mesmo que, do ponto de vista financeiro, essa escolha não fosse, à primeira vista, a mais atraente.

3: Em que época é que Rob McDonald chegou ao FC Groningen?

Rob McDonald ingressou no FC Groningen na época de 1982/83. Assinou um contrato de três anos, válido para o período de 1982 a 1985. A sua primeira época no clube foi especial, pois o FC Groningen qualificou-se para as competições europeias e a equipa contava com jogadores de grande qualidade.

4: Que jogadores integravam a equipa do FC Groningen, liderada por Rob McDonald, na época de 1982/83?

Na equipa do FC Groningen jogavam, entre outros, Ronald Koeman, Erwin Koeman, Ron Jans e Steve Goble. Rob McDonald descreve o grupo como talentoso, ambicioso e com um bom jogo. Para um avançado, isso era importante, pois dependia de jogadores que o compreendessem e soubessem servi-lo.

5: O que podem os jovens futebolistas aprender com a escolha de Rob McDonald pelo FC Groningen?

Os jovens futebolistas podem aprender que nem todos os clubes de maior dimensão, o interesse de clubes estrangeiros ou um salário mais elevado são, automaticamente, a melhor opção. As perguntas importantes são: o treinador é compatível comigo, terei tempo de jogo, o sistema adequa-se às minhas qualidades e poderei realmente evoluir nesse clube? Uma boa carreira não se constrói apenas com talento, mas também com escolhas sensatas.

6: Por que é que o jogo Ajax – FC Groningen (5-5) é tão especial?

O Ajax – FC Groningen 5-5 é um jogo que ficou na memória de muitos adeptos devido ao grande número de golos, à emoção e ao futebol ofensivo. Rob McDonald destaca, em particular, o golo de Ron Jans como um momento que ficou gravado na memória dos adeptos. O jogo demonstrou que o FC Groningen tinha coragem e vontade de jogar futebol.

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