O que realmente aconteceu naquela época no Willem II (1981/82)

A força mental no futebol parece algo abstrato. Algo sobre o qual se lê ou se fala. Até que as tuas escolhas pessoais são postas à prova – quando a situação à tua volta se torna imprevisível. É aí que tudo se decide. É aí que reside o desafio. O meu período no Willem II mostrou-me um aspeto novo e desafiante da realidade nos bastidores do futebol profissional.

Não é só o que acontece em campo, mas sim tudo o que se passa à volta que é determinante. Um novo ambiente, expectativas, pressão, escolhas e situações sobre as quais nem sempre se tem controlo. Como, por exemplo, graves problemas financeiros no clube que podem afetar diretamente a tua carreira.

Dinâmica diferenciadora

A mudança para o Willem II significou para mim começar de novo. Nova cidade, novo clube, novas pessoas. Morava sozinho num apartamento no último andar de um prédio e tive de reconstruir tudo do zero.

O que me chamou logo a atenção: muitos jogadores holandeses falavam inglês muito bem. Isso facilitou um pouco a adaptação no início. Consegues comunicar-te e sentes-te mais rapidamente integrado no grupo.

Mas logo percebi algo importante.

Se queres realmente fazer parte de uma equipa, tens de compreender mais do que apenas as instruções em campo. A dinâmica que faz a diferença vive-se nos bastidores. Nas conversas, no humor, nas reclamações no balneário, nas relações entre os colegas.

Essas conversas foram… em neerlandês.

Percebi que, afinal, me estavam a escapar nuances importantes.

Isso foi um ponto de viragem para mim. Eu sabia que, se quisesse integrar-me totalmente aqui, teria de aprender bem o neerlandês. E rapidamente. Pois é precisamente essa comunicação entre colegas que determina o funcionamento de uma equipa.

Jimmy Calderwood

E depois havia aquele outro recém-chegado estrangeiro, Jimmy Calderwood, de Glasgow, na Escócia. Mais tarde, ele viria a tornar-se um dos meus melhores amigos.

Todos falavam bem inglês… exceto o Jimmy. Ou melhor: ele falava inglês, mas de uma forma tal que até eu, sendo inglês, mal conseguia acompanhá-lo!

Lembro-me de olhar para ele e dizer “Jim, por favor, fala mais devagar. Podes falar inglês um pouco mais devagar? Não estou a perceber absolutamente nada do que estás a dizer.”

Ele olhou para mim como se o problema fosse inteiramente da minha responsabilidade.

Eu disse-lhe: “Meu, preciso de legendas quando falas...”

Mas, passados alguns meses, de repente comecei a compreendê-lo. Não porque ele tivesse mudado, mas porque eu ia percebendo cada vez melhor o que aquela sua estranha linguagem sonora significava. Esforcei-me por compreendê-lo e isso resultou.

É exatamente assim que as coisas costumam funcionar no futebol: é preciso esforçar-se para se compreenderem uns aos outros.

O treino da cabeça como arma

Naquela época, treinávamos intensamente no campo. Havia um exercício que sempre me marcou: o treino de cabeceamento com o chamado «galho».

Para quem não sabe: um «galg» era uma estrutura de treino em que uma bola ficava pendurada numa corda e girava continuamente. Se acertasses bem na bola com a cabeça, ela voltava sozinha; se falhasses, ela não voltava. O desafio para mim era acertar bem na bola dez vezes seguidas.

Parece simples, mas não foi nada disso.

Era preciso ter bom timing. Concentração. Força. Ousadia. E, acima de tudo, muita prática.

Treinei isso durante meses. Após cerca de três meses, consegui fazer aquela série de dez cabeçadas bem-sucedidas seguidas. Isso deu-me confiança. Não só no próprio exercício, mas também nos jogos.

Assim, o cabeceamento tornou-se uma arma importante no meu jogo. Isso contribuiu certamente para o meu rendimento nessa época.

É oportuno fazer aqui uma observação. Atualmente, este tipo de treino intensivo de cabeceamento já não é utilizado da mesma forma. O conhecimento sobre os possíveis riscos de cabeceamentos repetidos mudou. Atualmente, dá-se muito mais atenção à relação entre cabeçadas, impactos na cabeça e possíveis lesões cerebrais em idades mais avançadas. No meu tempo, prestava-se menos atenção a isso.

O que naquela altura era considerado normal no futebol profissional, hoje avaliaríamos de forma diferente. Isso também faz parte da realidade nos bastidores do futebol: as perspetivas mudam e um bom acompanhamento implica que se continue a aprender.

A visão

Outra realidade era que os meus primeiros sete jogos no Willem II não foram bons.

Quero dizer, não estava mesmo bem, e eu próprio sabia disso.

A crítica do público foi justificada.

Ao mesmo tempo, havia outro fator: o Willem II tinha um jovem avançado muito popular da região e os adeptos queriam vê-lo a jogar. Achavam que eu, como profissional a receber um salário, não valia o que ganhava.

Isso sente-se.

E isso só aumenta a pressão.

É precisamente aí que reside a força mental no futebol. Não quando tudo corre bem, mas quando as coisas correm mal, é aí que se vê o que vale.

Depois de mais uma derrota, houve uma conversa importante. Tudo foi posto em cima da mesa. Os jogadores expressaram-se com franqueza e sinceridade. E eu também pude dar a minha opinião: “Então passa-me a bola, para que eu possa marcar!”

Depois, fomos jantar juntos.

Aquele momento mudou alguma coisa. O clima ficou mais tranquilo, tornámo-nos uma equipa de verdade. A minha relação com os jogadores foi melhorando cada vez mais e eu integrava-me bem no grupo. Respeitávamo-nos uns aos outros. Depois de cada jogo, ganho ou perdido, não íamos diretamente para casa, mas ficávamos juntos para conversar. Uma espécie de balanço, por assim dizer.

As mulheres e namoradas dos jogadores não faziam parte desse grupo naquele momento. Lembro-me de um incidente em que a mulher de um dos jogadores, uma pessoa bastante autoritária, entrou no balneário e, na presença dos outros jogadores, ordenou ao marido que voltasse para casa imediatamente. Erro. A equipa mandou-a embora de forma simpática, mas direta: “Ele vem mais tarde, agora não.” Não sei como é que as coisas acabaram por correr em casa, mas isso demonstrou que o espírito de equipa era forte e importante para nós.

A tradução

O jogo que se seguiu pouco depois foi o jogo da temporada: em casa, contra o rival NAC.

Ganhámos por 2-0.

Joguei muito bem e marquei dois golos. Foi como se um grande peso mental tivesse sido tirado dos meus ombros.

21 golos pelo Willem II

A três jogos do fim da época, já estávamos a salvo, num jogo fora de casa contra o Go Ahead Eagles.

No final, marquei 21 golos pelo Willem II nessa época.Com isso, fiquei em terceiro lugar na lista dos melhores marcadores de toda a Primeira Divisão naquele ano, atrás de Kees Kist e Wim Kieft. E o recorde de maior número de golos numa única época pelo Willem II continua, até hoje, a meu nome. Naquela época, devo muito ao médio Toon Nelemans, um jogador canhoto incrivelmente talentoso. Ele entendia-me muito bem e fazia assistências perfeitas. O seu apoio, perspicácia e confiança foram de grande valor naquela altura.

Drama nos bastidores

Do ponto de vista desportivo, foi, portanto, um ano forte. Mas, nos bastidores, desenrolava-se um drama… O Willem II enfrentava graves problemas financeiros. Como jogadores profissionais a tempo inteiro, o Jimmy Calderwood e eu, juntamente com outros dois profissionais, tínhamos direito a uma indemnização substancial do clube através de uma contribuição legal para o fundo dos jogadores. No entanto, esse pagamento nunca chegou.

Em teoria, poderíamos ter tomado medidas drásticas. Se tivéssemos mantido a nossa posição, poderíamos até ter levado o clube à falência.

Mas não se faz uma coisa dessas sem mais nem menos.

Não, se souberes o que está em jogo. Não só para ti, mas também para a equipa, os colaboradores e as famílias dos jogadores.

Decidimos não aceitar essa remuneração.

A minha transferência acabou por ser utilizada para colmatar parte do enorme défice financeiro do clube. Em parte graças a isso, o Willem II conseguiu manter-se em atividade e continuar na Eredivisie.

Depois, fui – novamente – segui o meu próprio caminho, rumo ao Norte; o FC Groningen queria-me. Fiz as malas rapidamente, Já estava farto de Tilburg.

Andar

Quando olho para trás, para aquela época, vejo lições que vão além do futebol:

• A adaptação é essencial, tanto dentro como fora do campo
• A língua determina se vais realmente integrar uma equipa
• Nos bastidores, estão a ser lançadas as bases
• A confiança e a colaboração são o que torna o sucesso possível
• Às vezes, o futebol exige escolhas que vão além de nós próprios

E talvez o mais importante: é nos momentos em que nada corre bem que se aprende mais.

Em suma

A força mental no futebol não se resume apenas ao desempenho em campo, mas também à forma como lidamos com tudo o que acontece nos bastidores. No final, a minha passagem pelo Willem II acabou por ser uma época de duas faces. Por um lado, crescimento desportivo, golos e reconhecimento. Por outro lado, incerteza, pressão e uma despedida que não correu como esperava. Uma época em que tudo se juntou: desenvolvimento, responsabilidade e a dura realidade.

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O Próximo Objetivo não tem apenas a ver com o que se alcança, mas com quem nos tornamos ao longo do caminho.

FAQ

O que quer dizer Rob McDonald com «força mental» no futebol?
Segundo Rob McDonald, a força mental no futebol não se resume apenas a ter um bom desempenho sob pressão, mas, acima de tudo, a lidar com adversidades, críticas, incertezas e situações nos bastidores sobre as quais nem sempre se tem controlo.

Por que razão a língua era tão importante no Willem II?
Foi a química que determinou se o Rob poderia realmente integrar a equipa. Não eram apenas as instruções em campo que importavam, mas também as conversas, o humor, a tensão e a dinâmica entre os jogadores no balneário.

Que papel desempenhou o treino de cabeceamento durante a passagem de Rob pelo Willem II?
O treino de cabeceamento tornou-se uma parte importante do desenvolvimento do Rob como avançado. Através de repetições intensivas, o seu timing, confiança e capacidade de finalização melhoraram, embora ele agora encare isso com mais nuance, devido aos conhecimentos atuais sobre o impacto na cabeça.

Por que é que a época no Willem II foi difícil tanto do ponto de vista desportivo como emocional?
Em termos desportivos, Rob marcou 21 golos e ficou em terceiro lugar na tabela de melhores marcadores da Eredivisie. Ao mesmo tempo, o clube enfrentava problemas financeiros, pressão dos adeptos e decisões que iam além da sua própria carreira.

O que podem os jovens futebolistas aprender com a passagem de Rob pelo Willem II?
Os jovens jogadores podem aprender que o sucesso não se resume apenas ao talento. Adaptar-se, comunicar, construir relações de confiança, aceitar críticas e tomar decisões sob pressão são aspetos igualmente importantes.

Onde posso ouvir mais histórias do Rob McDonald?
Pode ouvir mais histórias e lições do futebol profissional no vPodcast de vídeo O próximo objetivo via RobMcPro.com.