O que os jovens futebolistas não aprendem em campo - mas aprendem no balneário

Todos os futebolistas sonham com isso.

Aquele momento em que já não se joga apenas no futebol juvenil, mas se abre a porta para o mundo real do futebol. O mundo dos contratos, da competição, das expectativas e do desempenho.

Para mim, esse momento começou quando, enquanto jovem jogador, tive a oportunidade de começar como aprendiz na Hull City.

Esse foi o início de uma viagem que me ensinou muito mais do que apenas futebol.

Porque se quisermos realmente compreender como funciona o mundo do futebol, não devemos olhar apenas para o que acontece no relvado. Também é preciso perceber o que se passa nos bastidores.

E acreditem: grande parte da verdade está no balneário.

Entrar no balneário pela primeira vez

Lembro-me bem.

A primeira vez que entrei no balneário dos estudantes profissionais senti-me completamente diferente dos jogos juvenis de domingo de onde provinha.

Lá, conhecíamos toda a gente. Riam-se juntos, treinavam juntos e tudo parecia familiar.

Mas aqui, tudo era diferente.

Entramos e pensamos imediatamente:

Como é que estes jogadores me vão ver?
Como é que me devo comportar aqui?
O que é que se espera de mim?

O grupo era constituído por jogadores de diferentes partes do Reino Unido. Muitos dos rapazes eram do norte de Inglaterra, especialmente da região de Newcastle. Também havia jogadores da Escócia, uma vez que o Hull City tinha uma parceria com uma escola de futebol em Glasgow.

E francamente: o meu primeiro desafio nem sequer foi o futebol.

O meu primeiro desafio foi compreendê-las.

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Dialectos, cultura e dinâmica de equipa

Qualquer pessoa que já tenha falado com georgianos ou escoceses sabe que, por vezes, quase parece estar a ouvir outra língua.

No início, tive mesmo de me esforçar para acompanhar corretamente as conversas. Então, o que é que eu fazia? Ouvia. Muito.

E, em retrospetiva, isso acabou por ser uma das coisas mais inteligentes que eu poderia ter feito.

Em vez de querer imediatamente traçar o meu perfil, dediquei algum tempo a observar.

Como é que os jogadores falam uns com os outros?
Como é que eles reagem aos treinadores?
Quem tem influência no grupo?
Quem é respeitado - e porquê?

O camarim é, na verdade, uma pequena sociedade em si.

Há líderes. Há trabalhadores silenciosos. Há brincalhões. Há tipos que querem provar o seu valor e jogadores que há muito sabem quais são os seus pontos fortes.

Enquanto jovem jogador, é importante começar por compreender como funciona esta dinâmica.

A lição da minha mãe

Antes de partir para o Hull City, a minha mãe deu-me uma lição simples mas poderosa.

Disse ela:

“Escutem atentamente os vossos treinadores e as pessoas colocadas acima de vós. Elas estão lá por uma razão. Sabem do que estão a falar”.”

Este conselho ficou-me sempre na memória.

Num mundo em que muitos jovens jogadores querem exibir-se de imediato, é tentador chegar com uma boca grande. Fazer-se de duro. Mostrar que se pensa que se tem direito a alguma coisa.

Mas já vi muitas vezes isso correr mal.

O respeito não se reclama. O respeito ganha-se.

A diferença entre o futebol juvenil e o futebol profissional

Nos amadores, de onde vim, estava a sair-me bem. Era um dos melhores jogadores de lá. Nessa altura, somos rapidamente vistos como um talento, como alguém que se destaca.

Mas quando entrei para o Hull City, essa perspetiva mudou completamente.

De repente, toda a gente era boa.
Toda a gente tinha talento.
Toda a gente tinha ambição.
Toda a gente queria tornar-se profissional.

E isso significa começar tudo de novo.

A sua antiga reputação já não conta. O que mostrou antes não lhe garante o passo seguinte. Tem de voltar a provar o seu valor - nos treinos, nas competições e no seu desempenho diário.

Foi preciso habituar-me a isso, mas também me deu concentração.

O meu objetivo enquanto jovem jogador

Desde o início, tive uma ambição clara: tornar-me o melhor futebolista profissional que pudesse ser.

Não melhor do que os outros para impressionar, mas melhor do que o meu próprio nível anterior.

Essa atitude ajudou-me a manter a concentração.

Porque no balneário não somos o centro das atenções. Fazemos parte de uma equipa. E quanto mais depressa compreenderes isso, mais depressa poderás crescer.

O que vi acontecer a outros jovens jogadores

Nesses primeiros anos, vi muitos jogadores entrarem e saírem.

Nem todos conseguiram.

Alguns sofriam de saudades de casa. Outros não estavam a treinar o suficiente. Alguns não conseguiam lidar com a pressão das competições. E outros ainda meteram-se em sarilhos devido ao seu comportamento no grupo.

O balneário pode ser difícil. Se não se enquadrar na cultura da equipa, isso nota-se rapidamente.

Isso não significa perder-se a si próprio. Mas significa compreender que a dinâmica da equipa e o carácter são, pelo menos, tão importantes como o talento.

A força mental é tão importante como o talento

É claro que também nem tudo correu na perfeição para mim.

Também conheci períodos em que a frustração aumentou. Jogos em que nada parecia funcionar. Momentos em que a pressão se tornou palpável.

Lembro-me bem de uma vez em que tive de varrer as bancadas ao frio e parti uma vassoura ao meio por frustração.

Não é o meu momento de maior orgulho.

Mas foi um momento que me mostrou algo importante: o futebol profissional não tem apenas a ver com técnica, físico ou talento. É também a forma como se lida com a desilusão, a pressão e a emoção.

A força mental não é uma reflexão tardia. É essencial.

Dois anos mais tarde: o meu primeiro contrato profissional

Os primeiros dois anos foram um período experimental. Uma oportunidade para mostrar que se podia aguentar o nível e que se estava pronto para mais.

E depois chegou aquele momento.

Ao fim de dois anos, tive a oportunidade de assinar um contrato profissional a tempo inteiro.

Um sonho tornado realidade.

Mas, ao mesmo tempo, significava também o passo seguinte: o balneário da equipa principal.

E, mais uma vez, aplicam-se regras diferentes, expectativas diferentes e um nível diferente de profissionalismo.

O poder de ouvir

Olhando para trás, para esse período, há um hábito que me ajudou imenso: ouvir.

Os jogadores experientes dão por vezes apenas pequenos conselhos. Um comentário sobre a forma de lidar com os treinadores. Um comentário sobre a forma de se preparar. Um aviso sobre como funciona o mundo do futebol.

Por vezes, eram apenas algumas frases.

Mas essas frases eram de ouro.

Porquê? Porque vieram de pessoas que já tinham percorrido o caminho.

O verdadeiro mundo do futebol está nos bastidores

Muitas pessoas só vêem o exterior do futebol.

Os jogos.
Os objectivos.
As entrevistas.
Os destaques.

Mas o mundo real do futebol está muitas vezes noutros lugares.

No autocarro.
No campo de treinos.
Durante os momentos de recuperação.
E o mais importante: no balneário.

É aí que se formam as amizades. É aí que surgem as tensões. É aí que o carácter é revelado. É aí que se aprende como as pessoas reagem sob pressão. E é também aí que descobrimos cada vez mais quem somos.

O meu conselho para os jovens jogadores

Não estou a dizer que o meu caminho é o único caminho. Cada jogador tem o seu próprio caminho, o seu próprio carácter e o seu próprio processo de aprendizagem.

Mas se posso dar um conselho aos jovens jogadores que querem dar o passo para o futebol profissional, é este:

Manter a calma. Escutar. Observe. Aprenda com as pessoas que o rodeiam.

Respeite a experiência dos outros, mas também ouse defender-se quando necessário.

O equilíbrio entre o respeito e a auto-confiança é essencial.

Porque é que comecei o Next Goal

Com O próximo objetivo Quero partilhar estas mesmas histórias.

Não apenas o belo exterior do futebol, mas a realidade por detrás dele. As lições do balneário. O lado mental do jogo. A dinâmica da equipa. Os pequenos momentos que têm um grande impacto numa carreira.

Porque se queres realmente progredir no futebol, tens de compreender como o jogo é realmente jogado.

Não só no relvado, mas também fora dele.

O seu próximo objetivo

Quer seja jogador, treinador, olheiro ou simplesmente amante do jogo: há sempre um próximo objetivo.

Próximo passo.
Um novo desafio.
Uma oportunidade para crescer.

Nos próximos episódios de O próximo objetivo Vou levá-lo ao mundo real do futebol. Com histórias, ideias e conversas com pessoas que conhecem o jogo por dentro e por fora.

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Sobre Rob McDonald

Rob McDonald partilha via RobMcPro e o podcast O próximo objetivo O autor de "A história do futebol" é uma fonte de informação honesta sobre o mundo do futebol. Desde lições de balneário e dinâmica de equipa a força mental e desenvolvimento de carreira, as suas histórias ajudam jogadores, treinadores e adeptos de futebol a compreender melhor o jogo - dentro e fora do campo.